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Por Milene de Bon
22 de jun. de 2026
O público está convidado a prestigiar o novo trabalho do autor. O evento acontece às 17h, no espaço da Hippocampus Sebo e Livraria, localizado no Balneário Cassino.
No próximo sábado (27), será lançado o livro “Tempos de sonho respirável”, do professor e escritor Daniel Baz. O evento acontece às 17h, no espaço da Hippocampus Sebo e Livraria, localizado no Balneário Cassino. O público está convidado a prestigiar o novo trabalho do autor.
Daniel Baz, escolhido Patrono da Feira do Livro da FURG em 2025, é graduado em Letras – Português e Inglês – pela Universidade Federal de Rio Grande. Possui Mestrado e Doutorado em Letras, com ênfase em História da Literatura, pela mesma instituição.
Para apresentar parte de sua produção literária, destacamos um trecho da crônica “Do que me ocorreu numa segunda-feira a tarde": — Se eu quisesse, poderia fazer uma religião inteira desta minha felicidade. E as sílabas dos pardais seriam meus salmos. E a fome das almas-de-gato seria minha única oração. Poderia mesmo ir à guerra por esta felicidade. E minhas armas seriam as pedras quentes com que sonham os cães e minha trincheira seria uma dessas nuvens de maio, cuja espuma é uma palavra inédita. Enfim, eu poderia viver para sempre desta minha felicidade. Minha saúde seria a mesma dos terreiros abandonados e meus números teriam vocação para grilos. Eu escreveria o nome do tempo, ouviria os hinos do silêncio e morreria de súbito, engasgado com algum fiapo de infância.— o fragmento faz parte do livro "Tempos de sonho respirável".

O livro estará disponível para aquisição diretamente com o escritor, na Hippocampus Sebo e Livraria e no site da editora Patuá.

Daniel Baz é professor e escritor. Autor do livro de poemas Antes que o mundo aconteça (Concha, 2016), dos volumes de crônicas Formas de fingir pássaros (E-Liber, 2021), finalista do Prêmio AGES Livro do Ano 2022, Da água que se faz onda e espelho (E-Liber, 2023), finalista do prêmio AGES Livro do Ano 2024 e vencedor do Prêmio ARL 2024 e Tempos de sonho respirável (Patuá, 2026). É também roteirista das histórias em quadrinhos Atlas e Dante, finalista do Prêmio Geek em 2021, Atlas e Dante: o oráculo de Yadala (MMarte, 2025) e Exomens: inutensílios (Da Rosa, 2023), ambas com desenhos de Law Tissot.
Leia mais do trabalho de Daniel Baz:
Trecho retirado da crônica “Geleia geral (sabor beijinho)”
É claro que, conceitualmente, eu sabia da existência do miojo sabor beijinho. Inclusive, na condição de brasileiro, de certa forma fui preparado a vida toda para ele. Cresci nesta nação que não teve alternativa histórica a não ser misturar, assimilar, inventar e fantasiar formas para lidar com as adversidades constantes. Aqui o improviso e a adaptação são passados geneticamente. A gambiarra é um estado de espírito. Tudo isso se reflete na nossa gastronomia que, muitas vezes, é apenas um culto velado a Dioniso nas suas combinações e encaixes. Como resultado disso tudo, criamos a Bossa Nova e o sushi de feijão; o futevolêi e a pizza de sorvete; a tomada de três pinos e a salada de maionese com maçã; o drible da vaca e a crepioca de qualquer coisa (inclusive, de vaca!). Farofa e geleia são metáforas de uso constante para representar esta mestiçagem étnica e espiritual na qual vivemos. Um miojo sabor beijinho deveria ser só mais um aperitivo neste banquete de 500 anos chamado Brasil, múltiplo e desigual, temperado às vezes com Jorge Mautner, às vezes com Jorge Vercillo.
Mesmo assim, quando vi em algum lugar da internet a propaganda do macarrão instantâneo saborizado com o doce português, sorri diante de tamanha aberração, sem saber que aquela pororoca entre o Marco Polo e o Pero Vaz de Caminha logo desembarcaria na minha cozinha. Agora, diante daquele pacotinho amarelo, eu sentia os dissabores do nosso sincretismo cultural, mistureba que ficava muito bonita dentro de um romance do Mário de Andrade, ali, na estante, mas nem tanto em uma garfada salgadoce, aqui, na minha boca. Convenhamos, uma coisa é nossa formação fusionada fabricar Macunaíma, outra é produzir má digestão.
Mas eu estaria enganando quem me lê se colocasse a culpa deste acontecimento apenas nas evoluções históricas e estéticas naturais da Pindorama. Não, o miojo de beijinho só estava ali, na mesa da minha cozinha, porque esta é a mesa da nossa cozinha, ou seja, também pertence à minha companheira, a Lu. E, quando se trata de comida, a Lu é uma desbravadora irrequieta, sempre apta a provar novas iguarias e a incrementar o nosso feijão com arroz por meio de texturas e sabores exóticos que ela descobre pelo mundo lá fora. Não foram poucos os momentos no passado em que cheguei em casa cansado e encontrei, por exemplo, o milagre de uma pitaya sobre a pia, um pacote de macadâmias dentro do armário ou uma graviola recém cortada na geladeira. Pensando bem, estas pequenas distrações serviram e servem para me lembrar constantemente que a vida é uma coisa mesmo muito grande, farta, e que se serve de muitas formas. E que é um desperdício prová-la às pressas. E é um contrassenso sorvê-la com restrições.
Fui então simpatizando com a ideia de preparar o miojo de beijinho e degustá-lo no jantar, afinal eu já o ruminava antes mesmo de ter a coragem de experimentá-lo. Caberia a mim, portanto, conferir o resultado dentro daquele pacote anfíbio, produto, por um lado, de cinco séculos de choques de culturas e, por outro lado, da inquietude culinária da minha companheira. Ambos, A Lu e a pátria, pareciam me garantir que, enquanto formos híbridos a ponto de produzirmos um miojo sabor beijinho, seguiremos livres, dispostos e potentes para tudo, antropofágicos em carne, osso, açúcar e sal, devorando e sendo devorados enquanto o mundo ao redor se renova e se regenera para comportar todas as fomes. Ou pelo menos é nisso que eu tento pensar quando ponho o garfo cheio de uma coisa pastosa sobre a língua e percebo, no fundo daquela sacola cheia de compras, um pacote de miojo sabor brigadeiro. Evoé, Oswald de Andrade, e bom apetite.